![]() “Caboclos Trambambes”. Ilustrações da década de 1770. Coleção do Museu Histórico Nacional. | |
População total | |
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aprox. 20 000 (período colonial)[1] 3 662 (Siasi/Sesai, 2014)[2] | |
Regiões com população significativa | |
![]() | 3662 (Siasi/Sesai, 2014)[2] |
Línguas | |
Língua portuguesa, Língua goitacá[3], Língua tremembé[4][5][6] | |
Religiões | |
Etnia | |
Nordéstidos[8] | |
Grupos étnicos relacionados | |
Goitacás, Cataguás, Araios, Maués, Muras, Puris, Aborígenes Sambaquis, Pré-tremembés |
Os tremembés são um povo étnico indígena que habita atualmente a área indígena Tremembé de Almofala (Itarema) e as terras indígenas São José e Buriti (Itapipoca), Córrego do João Pereira (Itarema e Acaraú) e Tremembé de Queimadas (Acaraú), no litoral do estado do Ceará, no Brasil. Também estão presentes em cidades do Maranhão como, Araioses e Tutóia, após migrações de terras cearenses.[9] O principal objetivo dos Tremembé é a demarcação de terras. São um povo que dá muita importância aos costumes, cultura e história para as próximas gerações.[10] A organização da tribo é separada entre os agentes de aldeamento. Ei-los: os diretores e cuidadores de índios, juízes de orfãos, religiosos, ligados à igreja, e por fim, membros da irmandade da Nossa Senhora da Conceição.[11]
Etimologia
[editar | editar código fonte]O vocábulo é oriundo do termo Tupi "tere-membé" que pode significar "tumultuario, amotinado"[12] ou "encharcado, alagadiço"[13] em alusão aos lugares onde o povo tremembé costumava habitar que geralmente eram compostos por brejos e pantanais na beira-mar. Muitos especialistas defendem tratar-se duma exodenominação dada pelos Tupis, a maneira como os Tupis os viam "peixes racionais" ou "moradores d'água". [14]
Descrição
[editar | editar código fonte]Descrições dadas por Vicente Pinzón e sua tripulação ao se depararem com os tremembés na costa cearense.
[editar | editar código fonte]Na sua visita as costas cearenses Pinzón não conseguiu contacto directo com os nativos do cabo de Santa Maria de la Consolación; notou porém que eles usavam bons arcos e lanças. Na sua segunda estação, em Rostro Hermoso, (Mucuripe) observou-os mais detidamente. Verificou que pernoitavam ao ar livre e acendiam fogos, dando a impressão que havia ali um acampamento. Percebeu também que "eram mais altos do que germanos ou húngaros". Informaram ainda os expedicionários, sob juramento, a Mártir que as pegadas dessa gente igualavam quase o dobro da do homem médio da Espanha.[15]
Descrições do Pe. Ivo d'Evreuz acerca da destreza dos tremembés no uso do arco e flecha e de sua força física colossal.
[editar | editar código fonte]0 pe. lvo d'Evreuz diz que os Tremembés se alimentavam ordinariamente de peixes, porém, iam a caça; não gostavam de fazer hortas (agricultura) nem casas; moravam sob choupanas e preferiam as planicies às florestas. Com mais destreza que os Tupinambás pescavam à flecha. São tão robustos, acrescenta o padre, a ponto de segurarem pelo braço um dos seus inimigos (Tupinambá) e atirarem-no ao chão como se fosse um capão (galinha). Dormem ordinariamente na areia.[16]
Registros iconográficos do fenótipo dos Tremembés durante o pré-contato com os colonos europeus (séc. XVI - séc. XVII)
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Em resumo, com base nas evidências supracitadas — orais, escritas e iconográficas do período colonial — os Tremembés do período pré-contato eram descritos como indivíduos de estatura média a alta, com cabelos escuros, cacheados ou ondulados, e fisionomia robusta, resultado da intensa atividade física ligada à pesca. Sua pele apresentava um tom mais claro em comparação com o dos demais povos nativos do litoral, e seus olhos eram castanhos escuros, refletindo traços que os diferenciavam no contexto regional. Essas características físicas, aliadas ao modo de vida marítimo, evidenciam a relação estreita dos Tremembés com o ambiente costeiro, moldando sua cultura, subsistência e identidade desde tempos ancestrais.
Origem dos tremembés
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Os tremembés eram originalmente nômades não tupis que viviam num território que se estendia do sul do Maranhão até ao Rio Acaraú, no atual estado do Ceará[17].
A expedição de Vicente Pinzón em setembro de 1500 menciona pela primeira vez os habitantes nativos da costa do Ceará. Um ano mais tarde, a expedição de Américo Vespúcio pela costa do Nordeste brasileiro em 1501 traria em suas crônicas episódios envolvendo os tremembés, embora ainda sem denominação tribal.[18]
Exercem por dois séculos trocas comerciais com muitos europeus que atracavam na costa brasileira a fim de manter controle sob o seu território. No século XVIII foram aldeados pelos Jesuítas nas missões de Tutoya (Tutóia-Maranhão), Aldeia do Cajueiro (Almofala) e Soure (Caucaia).[19][20] Nos tempos coloniais, os Tremembé viviam na região desde a foz do rio Gurupi, no Maranhão, até a Serra de Ibiapaba, no Ceará. Viviam principalmente da pesca e do comércio de estrangeiros. Eram corajosos e resistentes aos ataques dos colonizadores.[10]
Foram declarados como não existentes pelo então governador da Província do Ceará (José Bento da Cunha Figueiredo Júnior), após decreto de 1863. Antes disto, em 1854, os índios perderam o direito da terra pela regulamentação da Lei da Terra. Esses ressurgem no cenário cearense nas décadas de 1980 e 1990, quando são reconhecidos pela Fundação Nacional do Índio.[21]
Nas décadas de 1950 e 1960, famílias tremembés emigraram aos municípios de Raposa, junto com migrações de pescadores cearenses para a região, e de São José de Ribamar, para trabalhar num dos engenhos da região.[22][9]
Em 2013, os tremembés de Raposa tiveram sua etnicidade reconhecida pela Funai, em processo que contou com a participação de alguns membros do povo tremembé, que continua a viver em Almofala, e lutam pelo acesso aos direitos específicos e políticas sociais.[23]
Os tremembés de São José de Ribamar lutam por reconhecimento étnico e pela posse das terras da comunidade de Engenho.[24][9]
Lideranças tremembés que ficaram na história
[editar | editar código fonte]Cacique Tatuguaçu (Tatu Grande)
[editar | editar código fonte]Principal tremembé, inimigo dos portugueses, certa feita tentou dizimar uma expedição portuguesa que depois de muito perigo logrou fugir durante a noite. (Século XVI).[25]
Tatupeba (Tatu chato)
[editar | editar código fonte]Cacique de Camocim, Ceará.[25]
Arinhã Magú
[editar | editar código fonte]Arinhã Magú foi um nativo Tremembé maranhense que detinha o privilégio de cacique em sua comunidade.[26] Estima-se que tenha vivido entre 1679 e 12 de abril de 1763, vindo a falecer com aproximadamente 84 anos de idade,[26] uma longevidade notável para a época. Sabe-se ainda que, durante sua vida, os Araioses encontravam-se em processo de recente separação da nação Tremembé, o que reforça a ideia de que ele exerceu sua liderança em um período de redefinições étnicas e políticas significativas.[26]
A etimologia exata de seu nome permanece incerta, mas supõe-se tratar-se de um antropônimo cujos termos têm origem direta na língua nativa dos Tremembé, visto que os vocábulos não apresentam semelhança fonética ou estrutural com os já registrados na língua tupi.[27][28][29] Isso sugere não apenas a preservação de elementos linguísticos próprios daquele povo, mas também a importância de Arinhã Magú como testemunho histórico da resistência cultural diante das pressões coloniais e das influências externas.[26]
Arte e cultura
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O torém
[editar | editar código fonte]Os tremembés conseguiram reaprender um pouco da sua arte e cultura. Dançam o torém (uma dança tradicional tremembé) e ainda produzem o mocororó (vinho de caju azedo fermentado).[30] Costumam pintar as paredes das suas habitações, das escolas diferenciadas e cerâmicas com motivos simbólicos do seu habitat, como: o caju, a rolinha, peixes, caranguejos e outros. As mulheres tremembés confeccionam biojoias, como colares e pulseiras com conchas, búzios e sementes e costumam vendê-las a 7 de Setembro, dia em que os tremembés empreendem a marcha tremembé desde 2003.[31] Realizam-se muitos eventos culturais ao longo do ano pela tribo Tremembé. Eis alguns exemplos: o Torém, uma manifestação cultural relacionada à natureza, e também outros eventos, como a Festa do Murici e Batiputá, Festa e Iemanjá, etc.[10] A tecelagem também é confeccionada por eles. Os Tremembé falam apenas o português brasileiro, mas guardam resquícios da língua nativa, conhecida como Poromonguetá, uma língua derivada da família de línguas Tupi. Os cânticos do Torém contém muitas palavras do Poromonguetá, misturadas à palavras de origem Tupi.[4]
Dança do caroço
[editar | editar código fonte]Não há consenso quanto à origem da dança do caroço, há quem correlacione suas origens a antigos ritos de origem africana.[32] No entanto, muitos também afirmam que está diretamente ligada ao povo tremembé que habitava o município de Tutóia antes da chegada dos colonizadores na região.[33]
Exímios nadadores e pescadores
[editar | editar código fonte]Os tremembés são descritos como hábeis nadadores e pescadores por cronistas do período colonial, conforme é relatado, arremetiam a nado contra os tubarões com uma madeira pontuda, enfiavam-na guela adentro da boca do animal e traziam-no a superfície não tanto com o propósito de comê-lo, mas para extrair-lhe os dentes e fazer as pontas de suas flechas que eram venenosas e mortíferas.[34]
Pré-Tremembés
[editar | editar código fonte]O engenheiro, escritor e presidente do Instituto do Ceará Pompeu Sobrinho defendeu enquanto vivo que os tremembés habitaram alguns trechos das praias do Sul do Brasil, o que englobava um território que corresponde desde o atual estado do Rio Grande do Sul até o atual estado do Rio de Janeiro. No estado de São Paulo há alguns lugares cujo tupônimo é Tremembé em alusão a esse povo que outrora lá habitara.
Trecho do artigo “ÍNDIOS TREMEMBÉS” de Pompeu Sobrinho escrito para a Revista do Instituto do Ceará em 1951.
Há indícios de que este povo estranho habitara certos trechos das praias do sul do Brasil. Em S. Paulo é conhecido o tupónimo Tremembé; mas, indícios mais positivos, parece, indicam que nas nas costas dos Estados do Rio Grande do Sul até a do Rio de Janeiro viveram pre-tremembés.[35]
Notas
- ↑ Catolicismo sincrético, convivência de santos católicos com os espíritos de caboclos.
Referências
- ↑ «Tribos Indígenas Brasileiras». web.archive.org. 2 de janeiro de 2016. Consultado em 4 de fevereiro de 2023. Cópia arquivada em 2 de janeiro de 2016
- ↑ a b c Povos indígenas no Brasil. Disponível em https://pib.socioambiental.org/pt/povo/tremembe. Acesso em 15 de março de 2017.
- ↑ Pinto, Estêvão. Os indígenas do nordeste. EDIÇÃO ILUSTRADA COM 45 DESENHOS E MAPAS. 1935. Campanha Editora Nacional. p. 144, 145.
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- ↑ «Poromongûetá love poem». love.poem.free.fr (em pr). Consultado em 12 de fevereiro de 2023
- ↑ «Povo Tremembé do litoral cearense é celebrado em coleção de moda». AGÊNCIA ECONORDESTE. 12 de janeiro de 2022. Consultado em 12 de fevereiro de 2023
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- ↑ a b c Cabral, Ana (2014). História dos Tremembé: memórias dos próprios índios (PDF). [S.l.: s.n.]
- ↑ «Tremembé - Povos Indígenas no Brasil». Tremembé - Povos Indígenas no Brasil. 25 de janeiro de 2021. Consultado em 18 de novembro de 2022
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- ↑ «Cópia arquivada». Consultado em 8 de fevereiro de 2009. Arquivado do original em 9 de julho de 2010
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- ↑ Sobrinho, Pompeu. Pré-História Cearense. 1° tomo. Editora "Instituto do Ceará". 1955. p. 80.
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Ligações externas
[editar | editar código fonte]- «Povos indígenas do Brasil» Arquivado em 10 de março de 2007, no Wayback Machine.
- «Dados gerais dos Tremembés»