Sete Ensaios de Interpretação da Realidade Peruana | |
---|---|
![]() Capa da primeira edição em espanhol, de 1928 | |
Autor(es) | José Carlos Mariátegui |
Idioma | espanhol |
País | Peru |
Lançamento | 1928 |
Sete Ensaios de Interpretação da Realidade Peruana (em castelhano: Siete Ensayos de Interpretación de la Realidad Peruana, também conhecido como Los 7 Ensayos ou os Sete Ensaios), publicado em 1928, é a obra mais famosa do escritor e socialista peruano José Carlos Mariátegui e é considerada sua magnum opus.[1] Publicado em Lima em 1928, o livro é reconhecido por consolidar seu autor como uma das vozes marxistas mais influentes da América Latina. Trata-se de uma obra que foi reeditada dezenas de vezes, além de ter sido traduzida para russo, francês, inglês, italiano, português e húngaro.
Contexto
[editar | editar código fonte]Como base para o seu livro, Mariátegui utilizou uma série de artigos que havia publicado periodicamente em revistas como Mundial e Amauta. Nesta obra, ele se propôs a aplicar os princípios do materialismo histórico para realizar uma reavaliação completa da realidade peruana. No prólogo, o autor adverte que não é um crítico imparcial e objetivo, mas que seus julgamentos são guiados por seus ideais, sentimentos e paixões.
Os ensaios abordam temas diversos: a evolução econômica, o problema do indígena, a questão da terra, a instrução pública, o fator religioso, o regionalismo versus o centralismo e um "processo" (ou análise crítica) da literatura nacional. Além disso, Mariátegui planejava incluir um ensaio sobre a evolução política e ideológica do Peru, mas, como o número de páginas ficaria excessivo, decidiu desenvolver esse tema em um livro separado. Ele também estava ciente de suas limitações, deixando claro que nenhum de seus ensaios era definitivo e que retomaria esses tópicos no futuro. No entanto, sua morte prematura, dois anos depois, interrompeu esses planos.[2]
Para além dos acertos ou falhas do autor em seu objetivo de contribuir para uma crítica socialista dos problemas do Peru, este livro teve o mérito de incentivar novos trabalhos sobre a interpretação da realidade peruana e iniciar a busca por concepções que se afastassem do entendimento tradicional.[3]
Conteúdo
[editar | editar código fonte]Publicado em 1928, Sete Ensaios de Interpretação da Realidade Peruana é a obra fundamental de José Carlos Mariátegui, onde aplica o materialismo histórico para desvendar as estruturas econômicas e sociais do Peru. O livro parte de uma premissa central: a economia do Império Inca, de caráter coletivista e comunitário, foi destruída pela colonização espanhola, que implantou um sistema feudal baseado na exploração da mão de obra indígena e na concentração de terras.[4] Mesmo após a Independência, essa estrutura semifeudal persistiu, adaptando-se às novas formas de dominação burguesa sem, no entanto, superar suas contradições. Mariátegui identifica três economias coexistindo no Peru de sua época: os resquícios da organização comunal indígena, o latifúndio feudal e o capitalismo incipiente, marcado pela dependência externa.[5] Essa análise revela um país dividido entre o passado colonial e as pressões modernizadoras, sem ter resolvido suas desigualdades fundamentais.
O problema indígena é abordado não como uma questão étnica ou cultural, mas como um problema estrutural ligado à propriedade da terra. Mariátegui denuncia o gamonalismo — o domínio dos grandes proprietários rurais — como o principal obstáculo ao desenvolvimento nacional.[6] A República, controlada pelas oligarquias regionais, manteve o sistema de servidão disfarçado, impedindo qualquer reforma agrária efetiva.[7] Para ele, a emancipação indígena só seria possível através de uma transformação radical da estrutura fundiária, liderada pelos próprios camponeses organizados.[8] Essa visão antecipa movimentos camponeses posteriores e destaca a ligação entre opressão racial e exploração econômica, mostrando como o racismo se enraíza nas relações de produção.[9]
No campo da educação e da cultura, Mariátegui critica o sistema colonial herdado pela República, que perpetuava o elitismo e excluía as maiorias.[10] A reforma universitária dos anos 1920, inspirada no movimento de Córdoba (Argentina), buscava democratizar o ensino, mas esbarrou na resistência das oligarquias e na falta de uma base econômica que sustentasse mudanças profundas.[11] Da mesma forma, a religião é analisada em seu papel ideológico: o catolicismo colonial serviu para justificar a dominação espanhola, enquanto o sincretismo religioso indígena representava uma resistência cultural passiva.[12] Mariátegui rejeita o anticlericalismo superficial, argumentando que a verdadeira mudança só viria com a superação do sistema econômico que sustentava a Igreja como aparelho de controle social.[13]
Por fim, o ensaio sobre regionalismo e centralismo desmonta a falsa dicotomia entre federalismo e centralização, mostrando como ambos os sistemas serviram aos interesses das elites.[14] O centralismo republicano beneficiou a oligarquia costeira, enquanto o regionalismo muitas vezes foi instrumentalizado pelos gamonales para manter seu poder local.[15] Mariátegui defende que a verdadeira descentralização só ocorreria com uma transformação social que redistribuísse terras e poder político.[16] Sua conclusão é clara: o Peru não se modernizaria sem romper com o legado colonial e sem uma revolução que unisse operários, camponeses e indígenas em um projeto socialista.[17] A obra permanece atual justamente por expor as raízes históricas das desigualdades que ainda persistem no país.[18]
Recepção
[editar | editar código fonte]Elogios
[editar | editar código fonte]Abimael Guzmán, ex-líder do Sendero Luminoso durante a Revolução Peruana, elogiou Sete Ensaios de Interpretação da Realidade Peruana e as obras de Mariátegui. No final dos anos 1960, em uma conferência na Universidade San Cristóbal de Huamanga, em Ayacucho, Guzmán exaltou os Sete Ensaios, declarando ser "um documento inabalável" e que "continua plenamente vivo".[19] Marc Becker, professor de Estudos Latino-Americanos na Truman State University, também destacou a obra em seu livro José Carlos Mariátegui: An Anthology, afirmando que "Mariátegui apresenta uma análise brilhante dos problemas peruanos e, por extensão, latino-americanos, sob uma perspectiva marxista".[20]
Críticas
[editar | editar código fonte]O pensador crítico Víctor Andrés Belaúnde respondeu aos Sete Ensaios com La Realidad Nacional (A Realidade Nacional), apontando supostos erros e omissões na obra de Mariátegui. Defensor de um pensamento católico com tendências sociais progressistas, Belaunde buscava um debate aberto, mas a morte de Mariátegui em 1930 o impediu.[21] Já Juan Carlos Grijalva, professor espanhol do Assumption College, argumentou em seu artigo Paradoxes of the Inka Utopianism of José Carlos Mariátegui's Seven Interpretive Essays on Peruvian Reality que a defesa de Mariátegui do comunitarismo indígena como base para o socialismo é contraditória. Grijalva acusa Mariátegui de "idealizar" o passado incaico e de tratar os indígenas revolucionários como figuras imutáveis, fixadas em tradições agrárias ancestrais — uma visão que, segundo ele, desconsidera transformações históricas.[22]
Referências
- ↑ Mariátegui, José Carlos; Garrels, Elizabeth (1979). 7 ensayos de interpretación de la realidad peruana (em espanhol). [S.l.]: Fundacion Biblioteca Ayacuch. Consultado em 1 de julho de 2025
- ↑ «Biblioteca Ayacucho: 7 ensayos de interpretación de la realidad peruana (REEDICIÓN)». www.bibliotecayacucho.gob.ve (em inglês). Consultado em 1 de julho de 2025. Cópia arquivada em 7 de novembro de 2014
- ↑ Basadre, Jorge (1983). Historia de la República del Perú, 1822-1933 (em espanhol). [S.l.]: Editorial Universitaria. Consultado em 1 de julho de 2025
- ↑ Mariátegui, José Carlos (2021). Sete Ensaios de Interpretação da Realidade Peruana. [S.l.]: Expressão Popular. pp. 23–24. Consultado em 1 de julho de 2025
- ↑ Mariátegui, José Carlos (2021). Sete Ensaios de Interpretação da Realidade Peruana. [S.l.]: Expressão Popular. pp. 9–22. Consultado em 1 de julho de 2025
- ↑ Mariátegui, José Carlos (2021). Sete Ensaios de Interpretação da Realidade Peruana. [S.l.]: Expressão Popular. pp. 53–54. Consultado em 1 de julho de 2025
- ↑ Mariátegui, José Carlos (2021). Sete Ensaios de Interpretação da Realidade Peruana. [S.l.]: Expressão Popular. pp. 35–52. Consultado em 1 de julho de 2025
- ↑ Mariátegui, José Carlos (2021). Sete Ensaios de Interpretação da Realidade Peruana. [S.l.]: Expressão Popular. pp. 60–70. Consultado em 1 de julho de 2025
- ↑ Mariátegui, José Carlos (2021). Sete Ensaios de Interpretação da Realidade Peruana. [S.l.]: Expressão Popular. pp. 61–82. Consultado em 1 de julho de 2025
- ↑ Mariátegui, José Carlos (2021). Sete Ensaios de Interpretação da Realidade Peruana. [S.l.]: Expressão Popular. pp. 119–148. Consultado em 1 de julho de 2025
- ↑ Mariátegui, José Carlos (2021). Sete Ensaios de Interpretação da Realidade Peruana. [S.l.]: Expressão Popular. pp. 130–140. Consultado em 1 de julho de 2025
- ↑ Mariátegui, José Carlos (2021). Sete Ensaios de Interpretação da Realidade Peruana. [S.l.]: Expressão Popular. pp. 149–174. Consultado em 1 de julho de 2025
- ↑ Mariátegui, José Carlos (2021). Sete Ensaios de Interpretação da Realidade Peruana. [S.l.]: Expressão Popular. pp. 160–170. Consultado em 1 de julho de 2025
- ↑ Mariátegui, José Carlos (2021). Sete Ensaios de Interpretação da Realidade Peruana. [S.l.]: Expressão Popular. pp. 175–198. Consultado em 1 de julho de 2025
- ↑ Mariátegui, José Carlos (2021). Sete Ensaios de Interpretação da Realidade Peruana. [S.l.]: Expressão Popular. pp. 185–195. Consultado em 1 de julho de 2025
- ↑ Mariátegui, José Carlos (2021). Sete Ensaios de Interpretação da Realidade Peruana. [S.l.]: Expressão Popular. pp. 200–220. Consultado em 1 de julho de 2025
- ↑ Mariátegui, José Carlos (2021). Sete Ensaios de Interpretação da Realidade Peruana. [S.l.]: Expressão Popular. pp. 230–240. Consultado em 1 de julho de 2025
- ↑ Löwy, Michael (2008). "Prefácio". In: Mariátegui, José Carlos. Sete Ensaios de Interpretação da Realidade Peruana (2ª ed.). São Paulo: Expressão Popular. p. 7-8.
- ↑ Guzman, Abimael (1968–1987). "Collected Works of the Communist Party of Peru 1968–1987". Banned Thought.
- ↑ Mariátegui, José Carlos (2011). Jose Carlos Mariategui: An Anthology (em inglês). [S.l.]: NYU Press. Consultado em 1 de julho de 2025
- ↑ Belaunde, Victor Andres (1 de janeiro de 2009). La realidad nacional (Peruanos imprescindibles). [S.l.: s.n.] Consultado em 1 de julho de 2025
- ↑ Grijalva, Juan Carlos (1 de dezembro de 2010). «Paradoxes of the Inka Utopianism of José Carlos Mariátegui's Seven Interpretative Essays on Peruvian Reality». Journal of Latin American Cultural Studies (3): 317–334. ISSN 1356-9325. doi:10.1080/13569325.2010.528897. Consultado em 1 de julho de 2025
Ligações externas
[editar | editar código fonte]- 7 ensayos de interpretación de la realidad peruana na Wikisource em espanhol