
A reviravolta (em inglês: plot twist) é uma mudança radical inesperada na direção do enredo de uma história.[1][2] Quando acontece perto do final, é conhecida como um final surpresa.[3] A reviravolta é um dispositivo de enredo em que a revelação de uma informação imprevista força o leitor ou espectador a reavaliar toda a narrativa e os personagens apresentados até seu momento. Seu uso, em geral, tem a intenção de manter o interesse do público na obra e obter uma reação de surpresa.[4]
Conceito
[editar | editar código fonte]A reviravolta é um artifício de alto risco e alta recompensa, e que nem sempre funciona.[5][6][7] Pode mudar a percepção do público sobre os eventos anteriores ou introduzir um novo conflito que o coloque em um contexto diferente. Uma reviravolta na trama pode ser prenunciada, para preparar o público para aceitá-la, mas geralmente vem com algum elemento surpresa. Existem vários métodos usados para executar uma reviravolta na trama, como ocultar informações do público ou enganá-lo com informações ambíguas ou falsas. Nem toda trama tem uma reviravolta, mas algumas têm várias reviravoltas menores, e algumas são definidas por uma única reviravolta importante.[8] Revelar uma reviravolta para leitores ou espectadores com antecedência é comumente considerado um spoiler, uma vez que a maior parte das obras relacionadas a este elemento desenvolvem-se no intuito de alcançar a surpresa.[9]
Um exemplo inicial de romance com múltiplas reviravoltas foi o conto "As Três Maçãs", de Mil e Uma Noites. Começa com um pescador descobrindo um baú trancado. A primeira reviravolta ocorre quando o baú é arrombado e um cadáver é encontrado dentro. A busca inicial pelo assassino falha, e uma reviravolta ocorre quando dois homens aparecem, alegando separadamente ser o assassino. Uma complexa cadeia de eventos finalmente revela que o assassino é o escravo do investigador.[10][11]
Mecânicas
[editar | editar código fonte]Anagnórise
[editar | editar código fonte]Anagnórise, ou descoberta, é o reconhecimento súbito do protagonista (ou de outro personagem) de sua própria identidade e natureza.[12] Através desta técnica, as informações anteriormente inexplicadas do personagem são reveladas. Um exemplo notável de anagnórise acontece em Édipo Rei.[13] Onde Édipo mata seu pai e se casa com sua mãe na ignorância, aprendendo a verdade apenas no clímax da peça.[13] O primeiro uso deste dispositivo como o final surpresa de um mistério de assassinato foi em "As Três Maçãs", um conto medieval das Mil e Uma Noites, onde o protagonista Jafar ibne Iáia descobre por acaso um item-chave no final da história que revela o culpado por trás do assassinato.[14][15]
Flashback
[editar | editar código fonte]Flashback ou analepse é a interrupção súbita da sequência cronológica narrativa da história pela interpolação de eventos ocorridos anteriormente.[12] É usado para surpreender o leitor com informações previamente desconhecidas que fornecem a resposta para um determinado mistério, colocando certo personagem em uma visão diferente ou revelando a razão para uma ação anteriormente inexplicável.
Narrador não confiável
[editar | editar código fonte]Um narrador não confiável distorce o final revelando, quase sempre no final da narrativa, que o mesmo havia manipulado ou inventado a história contada até então, forçando o leitor a questionar suas suposições prévias sobre o texto.[12]
Falso protagonista
[editar | editar código fonte]Um falso protagonista é um personagem apresentado no início da história como o personagem principal, mas depois descartado, geralmente morto para enfatizar que não retornará. Um exemplo clássico é Marion Crane, de Psicose, que é brutalmente assassinada no início do filme. Outro exemplo é a personagem Casey Becker em Pânico, que apesar de estampar o cartaz e todo o material promocional do filme, é morta nos primeiros quinze minutos.
Peripeteia
[editar | editar código fonte]Peripeteia é uma inversão súbita da fortuna do protagonista, seja para o bem ou para o mal, que surge a partir das circunstâncias do personagem de maneira natural.[16] Ao contrário da mecânica de deus ex machina, a peripeteia deve ser lógica dentro do quadro da história.
Deus ex machina
[editar | editar código fonte]Deus ex machina é um termo latino que significa "deus vindo da máquina". Refere-se a um inesperado, artificial ou improvável dispositivo, personagem ou evento introduzido repentinamente em uma obra de ficção para resolver uma determinada situação ou desemaranhar a trama.[17] Nos teatros da Grécia Antiga, o "deus ex machina" ('ἀπὸ μηχανῆς θεός') era o personagem de um deus grego, literalmente trazido ao palco em um guindaste (μηχανῆς-mechanes), logo após a resolução de um problema aparentemente insolúvel pela vontade do deus. Em seu sentido moderno e figurativo, o "deus ex machina" traz o final da narrativa através da resolução inesperada (geralmente de maneira feliz) para o que aparentava ser um problema insuperável. Este mecanismo é usado frequentemente para terminar uma história sombria sobre uma nota mais positiva.
Justiça poética
[editar | editar código fonte]Justiça poética é um mecanismo literário em que a virtude é recompensada e o vício é punido, de tal forma que a recompensa ou punição tem conexão lógica com o ato.[17] Na literatura moderna, este mecanismo é muitas vezes usado para criar reviravoltas irônicas do destino em que o vilão é pego em seu/sua própria armadilha.
Arma de Chekhov
[editar | editar código fonte]A arma de Chekhov refere-se a uma situação em que um personagem ou elemento da trama é introduzido no início da narrativa[18] e, muitas vezes, a utilidade do item não é imediatamente aparente até chegar o momento em que este alcança importância fundamental na história. Um mecanismo semelhante a arma de Chekhov é a "planta", o qual prepara determinado elemento para ser repetido inúmeras vezes ao longo da história. Durante a resolução, o verdadeiro significado da planta é revelada. Ambos os mecanismos são usados para criar uma antecipação do que irá acontecer.
Arenque vermelho
[editar | editar código fonte]Um "arenque vermelho" é uma pista falsa, criada com a intenção de direcionar os investigadores a uma solução incorreta.[19] Este mecanismo geralmente aparece em romances policiais e ficções de mistério. A pista falsa é usada como um tipo de desorientador, um mecanismo destinado a distrair o protagonista e por extensão, o leitor, afastando-o da resposta correta ou das pistas verdadeiras. Um arenque vermelho também pode ser usado como um tipo de falso antecipador.
In medias res
[editar | editar código fonte]In medias res (latim para "no meio das coisas") é uma técnica literária onde a narrativa começa no meio da história, ao invés do início (ab ovo ou ab initio).[20] Os personagens, cenários e conflitos são frequentemente introduzidos através de uma série de flashbacks ou através de personagens que discutem entre si sobre eventos passados. Esta técnica cria uma reviravolta quando a causa não explicada anteriormente do incidente é revelada, culminando no clímax.
Narrativa não-linear
[editar | editar código fonte]Narrativa não-linear é um mecanismo de narração que revela a trama e o personagem em uma ordem não-cronológica.[21] Esta técnica requer a atenção do leitor em tentar organizar a linha do tempo da trama, a fim de compreender a história. Um final surpresa pode ocorrer como resultado de todas as informações reunidas, sendo direcionada até o clímax que coloca os personagens ou os eventos em uma perspectiva diferente.
Cronologia reversa
[editar | editar código fonte]A cronologia reversa tem como função revelar o enredo em ordem inversa, ou seja, a partir do evento final para chegar no inicial.[22] Ao contrário de histórias cronológicas, onde as causas vão progredindo antes de chegar a um efeito final, as não cronológicas revelam o efeito final antes de explicar e desenvolver as causas que levaram a ela, portanto. A causa inicial seria nada mais do que o final surpresa da trama.
Ver também
[editar | editar código fonte]Referências
- ↑ «Reviravolta». Dicio, Dicionário Online de Português. Consultado em 25 de maio de 2025
- ↑ Equipe (12 de julho de 2023). «Reviravolta: Criando Plot Twists Surpreendentes (com exemplos!)». Mundo Escrito. Consultado em 25 de maio de 2025
- ↑ Kay, Judith; Gelshenen, Rosemary (2001). Discovering Fiction Student's Book 2: A Reader of American Short Stories (em inglês) 2ª ed. Nova York: Cambridge University Press. p. 65. ISBN 978-1107622142. OCLC 877677405. Consultado em 25 de maio de 2025
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- ↑ Jenkins, Jerry B. (26 de janeiro de 2024). «How to Write Plot Twists: Your Complete Guide». Jerry Jenkins | Proven Writing Tips (em inglês). Consultado em 25 de maio de 2025
- ↑ Ezabella, Fernanda (31 de janeiro de 2010). «"Rei da comédia" derrapa em "Tá Rindo do Quê?"». Folha de S.Paulo. Consultado em 25 de maio de 2025
- ↑ Judge, Kieran (7 de março de 2020). «Plot Reveals vs Plot Twists: When They Work, When They Don't». The Film Magazine (em inglês). Consultado em 25 de maio de 2025
- ↑ Miyamoto, Ken (11 de março de 2019). «5 Reasons Why Your Twist Ending Doesn't Work». The Script Lab (em inglês). Consultado em 25 de maio de 2025
- ↑ Lehrer, Jonah. «Spoilers Don't Spoil Anything»
. Wired (em inglês). ISSN 1059-1028. Consultado em 25 de maio de 2025
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- ↑ Pinault, David (2023). Story-Telling Techniques in the Arabian Nights. Col: Studies in Arabic Literature 15 (em inglês). Leiden: BRILL. p. 93, 95, 97. ISBN 978-9004663084. OCLC 24213160. Consultado em 29 de maio de 2025
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- ↑ Pinault, David (1992). Story-Telling Techniques in the Arabian Nights. [S.l.]: Brill Publishers. pp. 95–6. ISBN 90-04-09530-6
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- ↑ Michael Payne; Jessica Rae Barbera (31 de março de 2010). A Dictionary of Cultural and Critical Theory. [S.l.]: John Wiley & Sons. p. 689. ISBN 978-1-4443-2346-7. Consultado em 23 de julho de 2013
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Bibliografia
[editar | editar código fonte]- Kay, Judith; Gelshenen, Rosemary (2001). Discovering Fiction Student's Book 2: A Reader of American Short Stories (em inglês) 2ª ed. Nova York: Cambridge University Press. 292 páginas. ISBN 978-1107622142. OCLC 877677405
- Singleton, Ralph Stuart; Conrad, James A. (2000). Healy, Janna Wong, ed. Filmmaker's Dictionary (em inglês) 2ª ed. Hollywood, Califórnia: Lone Eagle Publishing Company. 358 páginas. ISBN 978-1-58065-022-9. OCLC 44045730
- Baldick, Chris (2004). The Concise Oxford Dictionary of Literary Terms. Col: Oxford Paperback Reference (em inglês) 2ª ed. Oxford: Oxford University Press. 280 páginas. ISBN 978-0198608837. OCLC 53903799
Ligações externas
[editar | editar código fonte]- «Reviravolta» (em inglês). No site TV Tropes.
- «O que é e como usar o plot twist em sua história?». No site Editora Viseu.
- «Como escrever reviravoltas na trama: seu guia completo» (em inglês). No site Jerry Jenkins.
- «5 razões pelas quais seu final surpreendente não funciona» (em inglês). No site The Script Lab.
- «Como consertar uma reviravolta ruim na trama: evite estes exemplos» (em inglês). No site Alyssa Matesic.