Raul Pires Ferreira Chaves | |
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Nascimento | 27 de maio de 1890 Sé, Faro, Portugal |
Morte | 8 de agosto de 1967 (77 anos) Santa Maria de Belém, Lisboa, Portugal |
Cônjuge | Elvira da Conceição (1914-1947) |
Filho(a)(s) | Jorge Ferreira Chaves |
Ocupação | engenheiro civil, inventor |
Raul Pires Ferreira Chaves (Sé, Faro, 27 de maio de 1890 – Santa Maria de Belém, Lisboa, 8 de agosto de 1967) foi um Engenheiro Civil e Inventor português diplomado pelo Instituto Superior Técnico de Lisboa. Viveu e exerceu a sua actividade profissional em Portugal, em Cabo Verde e na Guiné Portuguesa (actual Guiné-Bissau).
Inventou e patenteou o “Sistema e material MURUS”,[1] precursor dos actuais sistemas de construção com blocos modulares e que foi também um contributo para a evolução do conceito de pré-fabricação. Com este material construiu muitas das obras por si projectadas.
Foi Director das Obras Públicas de Cabo Verde onde realizou diversos trabalhos que melhoraram a habitabilidade e contribuíram para o desenvolvimento do arquipélago, como a descoberta e captação de água doce em nascentes submarinas na Ilha do Sal.
Na Guiné Portuguesa (actual Guiné-Bissau), onde foi Presidente da Associação Industrial, Comercial e Agrícola,[2][3] é ainda recordado pela sugestiva alcunha de “Engenheiro Baga-baga”.[4] Foi também Director das Obras Públicas da Guiné.
Biografia
[editar | editar código fonte]Raul Pires Ferreira Chaves nasceu na freguesia da Sé, em Faro, a 27 de Maio de 1890. Era filha do proprietário Joaquim Manuel Ferreira Chaves, natural de Faro (freguesia de São Pedro), e de Maria Antónia Pires de Azevedo Chaves, doméstica, também natural de Tavira (freguesia de Santa Maria do Castelo).[5] Irmão de Maria Alexandrina Pires Chaves, de Olímpio Ferreira Chaves e de João Carlos Pires Ferreira Chaves.
A 26 de agosto de 1914, casou civilmente em Lisboa com a professora Elvira da Conceição (Socorro, Lisboa, c. 1889 – São Sebastião da Pedreira, Lisboa, 12 de dezembro de 1947), filha de Leonilde da Conceição, natural de Alenquer. Foram padrinhos de casamento o irmão do noivo, Olímpio Ferreira Chaves, e a esposa deste, Elvira de Sousa Chaves.[6] Deste casamento nasceram quatro filhos.[7]
Diplomado em Engenharia Civil pelo Instituto Superior Técnico.
Em 1915 desloca-se para Cabo Verde com a sua mulher. Ali permaneceu até 1926. Durante esse período nasceram, na Ilha do Maio e na Ilha de Santo Antão, os seus três primeiros filhos.
Em 1936, após um período passado na Guiné e em Portugal, regressa aquele arquipélago, agora como Director das Obras Públicas. Teve a seu cargo a construção de edifícios e infraestruturas diversas, necessária ao povoamento daquele território.
Debateu-se com grande escassez de meios humanos e materiais. Acumulando funções, foi professor no Liceu de São Vicente na cidade do Mindelo.[8]
A escassez de água doce era o maior dos problemas de algumas ilhas daquele arquipélago. Na Ilha do Sal localizou nascentes submarinas de água doce e conseguiu efectuar a sua captação. A maior abundância deste elemento, possibilitou o enorme aumento demográfico registado nas décadas seguintes naquela ilha (ver Sal (concelho de Cabo Verde)).
Inventou e patenteou, em 1936, um revolucionário sistema de construção de alvenarias autoportantes com blocos modulares – o “Sistema e material MURUS”. Este invento foi desenvolvido durante um período (de 1932 a 1936) em que permaneceu em Lisboa.
Permitindo construir com grande qualidade e em muito menos tempo do que pelos processos até aí disponíveis, a invenção do “Sistema e material MURUS” ajudou a reduzir a enorme dependência do exterior que caracterizava a “indústria da construção” nas antigas colónias portuguesas, em especial, na Guiné e em Cabo Verde.
Também reduzia os custos de edificação, porque sendo locais a produção dos blocos e a obtenção de parte da matéria-prima, o custo relativo ao transporte dos materiais de construção era substancialmente menor. Era também uma enorme vantagem dispensar a utilização de ferramentas convencionais e mão de obra especializada: inicialmente efectuou uma demonstração do sistema com uma equipa formada exclusivamente por mulheres sem experiência neste tipo de trabalho, que, sob a sua orientação, construíram um pequeno edifício.
Com o “Sistema e material MURUS” executou então, em Cabo Verde, a construção de diversos edifícios e monumentos cuja arquitectura, por sinal bastante informada do ponto de vista estético, também estava a seu cargo, dada a inexistência de arquitectos naquelas ilhas; actuou também à escala do urbanismo.
A destacar: Serviços de Estatística da Colónia de Cabo Verde na Cidade da Praia, o “Pavilhão dos serviços públicos do Aeródromo Internacional da Ilha do Sal” (actualmente Aeroporto Internacional Amílcar Cabral), o Farol de Fiúra[9] (na Ponta Norte da mesma ilha), um Obelisco de grandes dimensões, o Cruzeiro da Independência e o plano de urbanização da Praça 5 de Outubro na Cidade da Praia inteiramente constituído por moradias-tipo. Estes projectos são interessantes exemplos de adequação e coerência entre a concepção do objecto e o processo de construção utilizado.
Com o mesmo material também projectou e construiu infra-estruturas como poços, aquedutos, canais de irrigação, cisternas e até pontes.
Processou o Estado Português por ter preterido o “Sistema e material MURUS” num concurso para uma empreitada de obras públicas, em Cabo Verde, em favor de soluções mais dispendiosas.
Na Guiné Portuguêsa (actual Guiné-Bissau), entre 1926 e 1932, foi Director das Obras Públicas.
Regressou à Guiné na década de 1940. Instalou uma fábrica que produziu o “Sistema e material MURUS” em maior escala.
Foi Presidente da Associação Industrial, Comercial e Agrícola da Guiné.
Sob a sua presidência, e iniciativa, esta associação lança concurso, com apoio do Sindicato Nacional dos Arquitectos, para a aquisição do projecto de arquitectura da sua nova sede. A "Câmara de Comércio de Bissau", inaugurada em 1958, tornou-se a mais qualificada realização arquitectónica[10] da cidade de Bissau.[3] O projecto esteve em exposição em Lisboa nas Exposições Gerais de Artes Plásticas da Sociedade Nacional de Belas-Artes. Actualmente serve de sede ao PAIGC.
É ainda hoje recordado na Guiné-Bissau, pela sugestiva alcunha de “Engenheiro Baga-baga”.[4]
Raúl Pires Ferreira Chaves serviu de inspiração para o protagonista - "Doutor Virgolino" - do livro de contos para crianças “Animais, esses desconhecidos”,[11] de 1965, de Maria Helena da Costa Dias, ilustrado por Tóssan, baseado em episódios verídicos da sua vida.
É também possível encontrar, nos jornais de Portugal e das antigas colónias, numerosas referências à sua pessoa e ao seu trabalho.
Regressou a Lisboa no início de década de 1960.
Faleceu a 8 de Agosto de 1967 na freguesia de Santa Maria de Belém, em Lisboa.[5]
Realizações
[editar | editar código fonte]Invenção do sistema de construção de alvenarias autoportantes com blocos modulares: “Sistema e material MURUS”, que patenteou em 1936. Precursor dos actuais sistemas de construção com blocos modulares e também um contributo para a evolução do conceito de pré-fabricação.
Cargos
[editar | editar código fonte]- Professor do Liceu Infante Dom Henrique, no Mindelo.
- Director das Obras Públicas da Guiné Portuguesa.
- Director das Obras Públicas de Cabo Verde.
- Presidente da Associação Industrial, Comercial e Agrícola da Guiné.
Trabalhos publicados
[editar | editar código fonte]- CHAVES, Raúl Pires Ferreira (1946). Congresso do V centenário da descoberta da Guiné, promovido pela Sociedade de Geografia de Lisboa. [S.l.]: Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné. 69 páginas
Notas e referências
[editar | editar código fonte]- Notas
- ↑ Diário de Notícias Sábado, 10 de Junho de 1939 (p. 1)
- ↑ «Catalèg des les biblioteque». Consultado em 13 de maio de 2010[ligação inativa]
- ↑ a b Ana Vaz Milheiro, Eduardo Costa Dias. «Arquitectura em Bissau e os Gabinetes de Urbanização colonial (1944-1974)» (PDF). PDF. Consultado em 13 de maio de 2010
- ↑ a b Em alusão a uma espécie autóctone de activas térmitas, que constrói os notáveis “morros baga-baga”, conhecidos pela sua quase indestrutibilidade. Durante a guerra, chegavam a servir de abrigo ao fogo dos morteiros.
- ↑ a b «Livro de registo de batismos da paróquia da Sé - Faro (1892)». digitarq.arquivos.pt. Arquivo Distrital de Faro. p. 51v e 52, assento 106
- ↑ «Livro de registo de casamentos da 4.ª Conservatória do Registo Civil de Lisboa (1914-08-02 - 1914-12-31)». digitarq.arquivos.pt. Arquivo Nacional da Torre do Tombo. p. fls. 10 e 10v, assento 143
- ↑ Dado que o seu filho Alexandre Ribeiro Ferreira Chaves (n.1915) foi também engenheiro, poderá encontrar-se em alguns documentos a designação de Engº Ferreira Chaves (Pai). A sua filha Maria Helena da Costa Dias (n.1917) foi uma investigadora da Literatura Portuguesa e o seu filho Jorge Ferreira Chaves (n. 1920) era arquitecto.
- ↑ Professores do Liceu Infante D. Henrique, Mindelo: 1930-1931 Foto no Magazine Cultural Na Esquina do Tempo
- ↑ Acta da sessão do Conselho Técnico de Obras Públicas da Colónia de Cabo Verde de 28 de Dezembro de 1938
- ↑ Projecto dos arquitectos Jorge Ferreira Chaves e Álvaro Valladas Petersen
- ↑ Dias, Maria Helena da Costa (1965). Animais, esses desconhecidos. [S.l.]: Portugália. 200 páginas
- Livros
- MORAIS, João Sousa – Mindelo: Património Urbano e Arquitectónico / Assentamento Urbano e os seus protagonistas. Casal de Cambra: Caleidoscópio, Julho 2010. (p. 121)
- Linhas Gerais da História do Desenvolvimento da Cidade do Mindelo. Cabo Verde, Praia: Edição do Fundo de Desenvolvimento Nacional – Ministério da Economia e das Finanças, publicação do Ministério da Habitação e Obras Públicas, 1980. (p. 78)
- Jornais
- MIRANDA, Augusto (1938). «Santo Antão : Entrevista com o sr. engenheiro R. Pires Ferreira Chaves sobre a calamidade da ilha» (Jornal). Notícias de Cabo Verde : Orgão regionalista independente. - Ano 8, nº 179. 3 páginas. Consultado em 13 de maio de 2010
- “Notícias de Cabo Verde” 25 de Março de 1937
- “Notícias de Cabo Verde” 1 de Julho de 1937
- “Notícias de Cabo Verde” 1 de Fevereiro de 1938 (p. 1)
- “Notícias de Cabo Verde” 30 de Abril de 1938
- “Notícias de Cabo Verde” 25 de Março de 1941 (p. 2)
- “A Verdade” de 31 de Outubro de 1936 (p. 1)
- "Humanidade" de 26 de Fevereiro de 1938
- “Diário de Notícias” Sábado, 10 de Junho de 1939 (p. 1)
- “1º de Janeiro” de 12 de Fevereiro de 1940 (p. 1)
- “Novidades” de 18 de Fevereiro de 1941 (pp. 2, 6)
- “Jornal do Comércio” de 8 de Janeiro de 1942 (p. 1)
- Revistas
- Revista “TÉCNICA” de Novembro de 1939 (p. 467)
- Revista "A ARQUITECTURA PORTUGUESA CERÂMICA E EDIFICAÇÃO, REUNIDAS" de Julho de 1939 (p. 19)
- "REVISTA PORTUGUESA DE COMUNICAÇÕES" de Dezembro de 1936 (p. 175)
- Outros
- Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa - (P. 324); Sociedade de Geografia de Lisboa; 1928.
- Boletim da Agência Geral das Colónias - Portugal: Agência Geral das Colónias; 1932. (P. 300). "Raul Pires Ferreira Chaves — Lisboa — Maquette da cidade e porto de Bissau (Guiné) — Medalha de Ouro.(...)"
- Repartição Provincial dos Serviços de Administração Civil, 1907-1979 - (P. 210); Instituto do Arquivo Histórico Nacional (Praia, Cape Verde)
- CHAVES, Raul Pires Ferreira. (Presidente da Direcção da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné). Carta endereçada ao Presidente do Sindicato Nacional dos Arquitectos, Lisboa, 11 de Novembro de 1949 [1 página]. Espólio: Biblioteca da SRS/Ordem dos Arquitectos [Manuscritos Avulsos].
- FERNANDES, I. Peres. (Secretário do Sindicato Nacional dos Arquitectos). Carta endereçada ao Presidente da Direcção da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné, Lisboa, 4 de Março de 1950 [1 página]. Espólio: Biblioteca da SRS/Ordem dos Arquitectos [Manuscritos Avulsos].
- Catálogo da “X Exposição geral de Artes Plásticas 1956 – Dez anos de exposição Geral de Artes Plásticas 1945-1956”; Obra 124 - Projecto para a nova sede da Associação Comercial, Industrial e Agrícola da Guiné, a construir em Bissau.