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Kokugaku

Kokugaku (Kyūjitai: 國學 Shinjitai: 国学; literalmente, "estudo do nosso país") foi uma corrente intelectual japonesa que surgiu durante o período Edo (1603–1868) e que buscava renunciar os estudos predominantes budistas e chineses, favorecendo, ao invés disso, pesquisas filosóficas dos clássicos japoneses antigos. A palavra "Kokugaku" foi traduzida como "estudos nativos" ou "estudos nacionais", sendo uma resposta ao neoconfucionismo sinocêntrico. Assim também, rejeitou o estoicismo do confucionismo e valorizou a cultura japonesa anterior à filosofia de Confúcio [1]. Portanto, esse movimento buscava redescobrir e valorizar a cultura, a língua e a religião nativas do Japão, promovendo uma identidade nacional distinta[2].

Retrato de Hirata Atsutane (1776–1843), um dos principais pensadores do Kokugaku no final do período Edo.

O Kokugaku surgiu como uma reação ao domínio dos estudos chineses — o Kangaku — e à influência do budismo na vida intelectual japonesa. Os estudiosos do Kokugaku argumentavam que a verdadeira essência da cultura japonesa poderia ser encontrada nos textos antigos do país, como o Kojiki ("Registro de Assuntos Antigos", de 712 d.C.), o Nihon Shoki ("Crônicas do Japão", 720 d.C.) e a antologia poética Man'yōshū ("Coleção das Dez Mil Folhas", século VIII).[2] Embora escritos em caracteres chineses, esses textos eram considerados pelos kokugakusha (estudiosos do Kokugaku) como expressões autênticas da alma japonesa.

No final do século XVIII, o Kokugaku, a partir da literatura antiga japonesa e do xintoísmo, passou a defender um retorno a uma suposta "idade de ouro" da cultura e da sociedade japonesa. Os kokugakusha valorizavam especialmente o xintoísmo e sua associação com a figura divina do imperador, atribuindo-lhe um poder soteriológico.[3] Essa perspectiva serviu de base para a ideologia do xintoísmo estatal (Kokka Shintō) no Japão moderno, no qual o culto ao imperador e aos kami nacionais foi institucionalizado. [4]

Acredita-se que os kami — seres divinos que habitam o universo — estão presentes em tudo: desde pontos geográficos, como o Monte Fuji, até as almas de crianças falecidas. O panteão xintoísta, considerado infinito, inclui divindades incorporadas de outras tradições religiosas, como o budismo e o taoismo.[5] Por essa razão, embora esse pensamento tenha sido promovido institucionalmente, não pode ser considerado inteiramente compulsório: suas ideias foram também apropriadas pela população, especialmente por meio do sistema educacional.[6]

Com a Restauração Meiji, muitos desses estudiosos passaram a apoiar a adoção do xintoísmo como ideologia estatal, promovendo a destruição de templos budistas e uma revalorização de formas tradicionais e religiosas da história japonesa.[7] Essa retomada envolveu, por exemplo, a valorização da antiga poesia japonesa, anterior à ascensão do feudalismo (século XII), como forma de expressar a verdadeira "emoção" do espírito japonês.

Os kokugakusha defendiam que essa fé nativa revelava uma espiritualidade mais direta, intuitiva e emocional, em contraste com a racionalidade moralista do confucionismo e a renúncia ao mundo promovida pelo budismo.[1] Assim, o Kokugaku desempenhou um papel importante na construção da identidade nacional japonesa. Seus ideais influenciaram movimentos políticos como o Sonnō jōi ("reverenciar o imperador, expulsar os bárbaros"), que contribuíram para a queda do Xogunato Tokugawa e a Restauração Meiji, em 1868.[2]

Impactos do Kokugaku sobre o xintoísmo

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O Kokugaku lançou as bases para a posterior purificação do xintoísmo da influência budista — processo que se consolidou no século XIX, especialmente após a Restauração Meiji (1868), com a promulgação da política de shinbutsu bunri, que determinou a separação oficial entre budismo e xintoísmo. No entanto, há controvérsias quanto ao reconhecimento do xintoísmo estatal como uma religião autônoma: sob perspectivas tanto históricas quanto acadêmicas no campo das religiões, ele é frequentemente compreendido mais como um sistema de ordem moral, ética e reverência, permeado por elementos místicos, do que como uma religião no sentido estrito. [8]

Segundo o historiador Kuroda Toshio, a concepção do xintoísmo como uma religião nativa genuína do Japão só começou a se estruturar com o desenvolvimento do Kokugaku, sobretudo através das interpretações de Motoori Norinaga.[9]

Pesquisadores como Shigeyoshi Murakami, conforme analisado por Susumu Shimazono, argumentam que a formulação do xintoísmo estatal se consolidou com o Kyōiku Chokugo de 1890, que instituiu diretrizes morais em nome do imperador. Nesse contexto, os santuários xintoístas passaram a atuar como bases ideológicas do Estado, sustentando o discurso oficial por meio da valorização da doutrina Kokugaku. Essa leitura, ao associar diretamente as diversas formas de xintoísmo ao imperialismo japonês e aos eventos da Segunda Guerra Mundial, permanece controversa tanto dentro do Japão quanto entre os países que sofreram com os impactos do expansionismo japonês.[6]

Esses mesmos preceitos ideológicos foram posteriormente instrumentalizados por organizações nacionalistas e fascistas radicais, materializados em diversas associações patrióticas. A religiosidade, nesse contexto, passou a operar mais como espetáculo e experiência estética do que como orientação ética ou moral.[3] Após a Segunda Guerra Mundial, a escola Kokugaku foi alvo de críticas por ter supostamente fornecido as bases ideológicas que contribuíram para o surgimento do militarismo japonês e do fascismo japonês nas décadas de 1930 e 1940.[10] Ou seja, seus princípios teriam sido mobilizados como instrumentos de disciplinamento social e político por meio de movimentos nacionalistas e autoritários.

Principais pensadores

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O movimento de “estudos nativos” culminou na criação da Escola Fukko de Xintoísmo, sob a liderança dos principais expoentes desse pensamento:

Motoori Norinaga (1730-1801) foi um dos principais representantes da escola Kokugaku[11]
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Referências

  1. a b Earl, David Margarey, Emperor and Nation in Japan, Political Thinkers of the Tokugawa Period, University of Washington Press, 1964, pp. 66 ff.
  2. a b c «Kokugaku | Shintoism, Nationalism, Intellectualism | Britannica». www.britannica.com (em inglês). Consultado em 11 de maio de 2025 
  3. a b Saito, Nádia. «A formação do facismo no Japão de 1929 a 1940». Consultado em 11 de maio de 2025 
  4. SILVA, Guilherme (5 de dezembro de 2016). «SILVA, Guilherme et al. Xintoísmo e produção de presença-a espiritualidade no mangá Mushishi. 2016.» (PDF). Repositório Institucional da UFSC. Xintoísmo e produção de presença - a espiritualidade no mangá Mushishi. Consultado em 11 de maio de 2025 
  5. SILVA, Guilherme (5 de dezembro de 2016). «SILVA, Guilherme et al. Xintoísmo e produção de presença – a espiritualidade no mangá Mushishi. 2016.» (PDF). Repositório Institucional da UFSC. Xintoísmo e produção de presença – a espiritualidade no mangá Mushishi. Consultado em 11 de maio de 2025 
  6. a b Luiz, Leonardo Henrique (26 de maio de 2022). «O espírito de Yamato: O xintoísmo de Estado e o Kyōiku Chokugo na formação do nacionalismo japonês e a imigração para o Brasil (1890–1980)». doi:10.22350/9786559174928. Consultado em 11 de maio de 2025 
  7. Ehalt, Rômulo Da Silva (3 de setembro de 2013). «Notas sobre o nascimento da historiografia moderna no Japão da Era Meiji». História da Historiografia: International Journal of Theory and History of Historiography (12): p.121. ISSN 1983-9928. doi:10.15848/hh.v0i12.601. Consultado em 11 de maio de 2025 
  8. Duteil-Ogata, Fabienne (2003). «George J. Jr. Tanabe, Religions of Japan in Practice». Archives de sciences sociales des religions: 59–157. ISSN 0335-5985. doi:10.4000/assr.1484. Consultado em 11 de maio de 2025 
  9. Duteil-Ogata, Fabienne (2003). «George J. Jr. Tanabe, Religions of Japan in Practice». Archives de sciences sociales des religions: 59–157. ISSN 0335-5985. doi:10.4000/assr.1484. Consultado em 11 de maio de 2025 
  10. MATTAR, J. Introdução à Filosofia. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2010, p. 282.
  11. MATTAR, J. Introdução à Filosofia. São Paulo. Pearson Prentice Hall. 2010. p. 282.


  • Harry Harootunian: Things Seen and Unseen: Discourse and Ideology in Tokugawa Nativism. Chicago: University of Chicago Press 1988.
  • Mark McNally: Proving the Way: Conflict and Practice in the History of Japanese Nativism. Cambridge, MA: Havard UP, 2005.
  • Peter Nosco: Remembering Paradise. Nativism and Nostalgia in Eighteenth Century Japan. Cambridge, MA: Havard UP, 1990.
  • Michael Wachutka: Kokugaku in Meiji-period Japan: The Modern Transformation of 'National Learning' and the Formation of Scholarly Societies. Leiden, Boston: Global Oriental, 2013.