Os burocratas de nível de rua (BNRs), ou trabalhadores da linha de frente, são encarregados do serviço público que interagem diretamente com os cidadãos para implementar políticas públicas. A literatura de políticas públicas ressalta a importância desses agentes na implementação das políticas públicas.
Origem e características
[editar | editar código fonte]Em 1969, o conceito foi criado por Michael Lipsky,[1] mais tarde aprofundado em sua obra Street-Level Bureaucracy: Dilemmas of the Individual in Public Services.[2]
Lipsky enfatiza que os burocratas de nível de rua são os agentes públicos responsáveis pelo contato direto entre o Estado e os cidadãos,[2] permitindo que a população acesse os serviços públicos de forma indireta. É por meio deles que a população acessa a administração pública, o que pode ser exemplificado pela metáfora da sociologia do guichê:[3][4] é na pequena abertura do guichê que ocorre a interação entre o Estado e a sociedade. São gatekeepers, pois controlam o acesso dos cidadãos ao Estado. Dessa forma, sua atuação molda a percepção da população sobre as políticas públicas e a própria administração pública.[2]
Esses profissionais desempenham um papel fundamental na prestação de serviços públicos, atuando como mediadores entre policymakers (ou fazedores de política) e os cidadãos para a entrega de uma política[5]. Além de aplicar normas, eles também exercem influência sobre a formulação das políticas, pois suas decisões podem redefinir como essas são aplicadas na prática, atuando como os próprios policymakers[5].
São o foco da controvérsia política, pois são pressionados por demandas de serviço que exigem aumento de eficiência e responsividade, enquanto cidadãos demandam atendimento individualizado e resolutivo. Essa dualidade gera dilemas éticos e operacionais, especialmente em contextos de escassez de recursos e alta demanda por serviços públicos.[6]
A burocracia de nível de rua integra a fase de implementação no ciclo das políticas públicas, iluminando a agência do trabalhador na implementação de uma política. Assim, os burocratas de nível de rua possuem certa margem de liberdade e relativa autonomia organizacional ao desempenhar suas funções.[7][8][9] Isso significa que eles tomam decisões cotidianas que afetam diretamente a forma como as políticas públicas são aplicadas e percebidas pela população. Esse nível de autonomia os diferencia de outros trabalhadores da administração pública, pois suas interações e julgamentos podem impactar significativamente o acesso aos direitos e serviços públicos.[10]
Atuação dos burocratas de nível de rua
[editar | editar código fonte]Diversos profissionais do setor público podem ser classificados como burocratas de nível de rua, incluindo agentes comunitários de saúde,[7] policiais,[11] assistentes sociais,[12] professores,[13] policiais penais,[14] fiscais do trabalho,[15] etc.
Os BNRs exercem diversas funções fundamentais,[16][17] entre elas:
- Converter demandas individuais em categorias preexistentes nas políticas públicas, por meio de interpretações que influenciam diretamente a alocação de benefícios e sanções.
- Distribuir benefícios e sanções, afetando diretamente o bem-estar dos cidadãos.
- Estruturar o contexto da interação, determinando quando e sob quais circunstâncias ocorrerá.
- Ensinar os cidadãos a interagir com o sistema público, ou seja, orientar sobre procedimentos, normas de comportamento esperadas, penalidades e formas de acessar informações.
- Gerenciar conflitos entre demandas institucionais e necessidades individuais dos cidadãos.
- Atuar exercendo discricionariedade.
Relevância e impacto
[editar | editar código fonte]Pesquisas sobre esse tipo de burocracia destacam a importância das decisões tomadas por esses profissionais,[18] pois são eles que, na prática, determinam o acesso a direitos e benefícios: "é por meio deles que os direitos são, ou não, adquiridos, que a eficiência é, ou não, conquistada, que as desigualdades são, ou não, reduzidas".[19] A forma como desempenham suas funções pode reforçar desigualdades estruturais ou promover maior equidade na prestação de serviços públicos. Assim, para além de implementar políticas, a burocracia de nível de rua influencia seus impactos e efetividade, tornando esses profissionais agentes fundamentais na concretização (ou limitação) dos direitos sociais.[20]
Referências
- ↑ Lipsky, Michael (1969). Toward a Theory of Street-Level Bureaucracy (IRP Discussion Papers No. 48-69) (p. 45). Madison, WI: Institute for Research on Poverty (IRP), University of Wisconsin. Retrieved from http://www.irp.wisc.edu/publications/dps/pdfs/dp4869.pdf
- ↑ a b c Lipsky, Michael (março de 1981). «Street-Level Bureaucracy: Dilemmas of the Individual in Public Services». Michigan Law Review (4). 811 páginas. ISSN 0026-2234. doi:10.2307/1288305. Consultado em 25 de março de 2025
- ↑ Woollven, Marianne (25 de agosto de 2010). «Vincent Dubois, La vie au guichet. Relation administrative et traitement de la misère». Lectures. ISSN 2116-5289. doi:10.4000/lectures.1112. Consultado em 26 de março de 2025
- ↑ PIRES, R. R. C. Sociologia do guichê e implementação de políticas públicas. BIB, São Paulo, n. 81, p. 5-24, 2016.
- ↑ a b Cohen, Nissim (27 de abril de 2021). Policy Entrepreneurship at the Street Level. [S.l.]: Cambridge University Press. Consultado em 26 de março de 2025
- ↑ Lotta, Gabriela Spanghero. «Implementação de políticas públicas: o impacto dos fatores relacionais e organizacionais sobre a atuação dos burocratas de nível de rua no Programa Saúde da Família». Consultado em 1 de abril de 2025
- ↑ a b Lotta, Gabriela Spanghero (maio de 2012). «Saberes locais, mediação e cidadania: o caso dos agentes comunitários de saúde». Saúde e Sociedade (suppl 1): 210–222. ISSN 0104-1290. doi:10.1590/s0104-12902012000500018. Consultado em 25 de março de 2025
- ↑ Maynard-Moody, Steven; Musheno, Michael (2003). Cops, Teachers, Counselors. Ann Arbor, MI: University of Michigan Press
- ↑ Møller, Marie Østergaard (6 de abril de 2016). «"She isn't Someone I Associate with Pension"—a Vignette Study of Professional Reasoning». Professions and Professionalism (1). ISSN 1893-1049. doi:10.7577/pp.1353. Consultado em 25 de março de 2025
- ↑ Maynard‐Moody, Steven; Portillo, Shannon (14 de outubro de 2010). «Street‐Level Bureaucracy Theory». Oxford Handbooks Online. doi:10.1093/oxfordhb/9780199238958.003.0011. Consultado em 25 de março de 2025
- ↑ Alcadipani, Rafael; Lotta, Gabriela; Rodrigues, Cintia (16 de outubro de 2021). «Police Officers and the Meaning of Work: The Forgotten Dimension». Public Organization Review (4): 1081–1097. ISSN 1566-7170. doi:10.1007/s11115-021-00568-8. Consultado em 25 de março de 2025
- ↑ de Assis, M. A. (2023). Burocratas de nível de rua do Sistema Único de Assistência Social: o que fazem, como interagem e classificam os usuários?.
- ↑ SAMPAIO, G. T. C. Logics of categorization at the frontline: how do kindergarten professionals apply and block stereotypes?. 2024.
- ↑ Aronis, M. A. (2024). De agentes a policiais: como trabalhadores do sistema penitenciário percebem a mudança de categoria profissional.
- ↑ PIRES, R. R. C. Estilos de implementação e resultados de políticas públicas: fiscais do trabalho e o cumprimento da lei trabalhista no Brasil. In: FARIA, C. A. P. (Org.). Implementação de políticas públicas: teoria e prática. Belo Horizonte: Editora PUC Minas, 2012.
- ↑ LOTTA, Gabriela. "Burocracia e implementação de políticas públicas: a interface entre Estado e sociedade." Rio de Janeiro: Editora FGV, 2015.
- ↑ LOTTA, G, S. Desvendando o papel das burocracias de nível de rua no processo de implementação: o caso dos agentes comunitários de saúde. In: FARIA, C. A. P. (Org.). Implementação de políticas públicas: teoria e prática. Belo Horizonte: Editora PUC Minas, 2012b.
- ↑ Brodkin, Evelyn Z. (18 de setembro de 2012). «Reflections on Street‐Level Bureaucracy: Past, Present, and Future». Public Administration Review (6): 940–949. ISSN 0033-3352. doi:10.1111/j.1540-6210.2012.02657.x. Consultado em 22 de abril de 2025
- ↑ Lipsky, M. (2019). Burocracia em nível de rua: dilemas do indivíduo nos serviços públicos.
- ↑ PIRES, R. R. C. (Org.). Implementando desigualdades: reprodução de desigualdades na implementação de políticas públicas. Rio de Janeiro: Ipea, 2019.